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23 Junho 2026

Água, solo e montado: lições de pesquisa para a agricultura sustentável em Portugal

Nos últimos tempos tem‑vindo a acumular‑se evidência de que a gestão da água não é apenas uma questão de quantidade, mas também de qualidade do solo. O estudo que avalia os efeitos a longo prazo da irrigação deficitária (DI), do sistema de plantio direto (no‑tillage, NT), da genética das culturas, do tipo de cultivo e da utilização de culturas de cobertura (CC) mostra que a combinação de DI com NT e CC pode melhorar significativamente a infiltração de água e a matéria orgânica do solo, mesmo em regiões áridas e semiáridas. Na minha leitura, isto reforça a ideia de que práticas de conservação do solo não são luxos, mas estratégias essenciais para tornar a produção mais resiliente face à escassez hídrica.

Outro trabalho que chamou a minha atenção analisa as tendências sazonais do NDVI (Índice de Diferença Normalizada de Vegetação) em dois montados de sobreiro entre 1984 e 2015, relacionando‑as com os principais fatores climáticos. Os resultados revelam um declínio progressivo da vigor vegetativo nos anos mais secos, sinalizando que os ecossistemas de montado estão a sentir o aperto das secas intensificadas pelas alterações climáticas. Pessoalmente, acredito que estes dados são um alerta para que os gestores de montado integrem monitorização remota e práticas de adaptação, como a diversificação de espécies sobressalentes ou a melhoria da retenção de água no solo, antes que a degradação se torne irreversível.

A notícia do CitiNewsroom sobre a exploração da agricultura regenerativa traz um enfoque mais holístico, propondo que a saúde do solo seja o pilar central para aumentar a resiliência climática das explorações agrícolas. As técnicas mencionadas – rotação complexa de culturas, cobertura permanente do solo, redução de lapidação e uso de adubos orgânicos – convergem exatamente com os benefícios observados nos estudos de DI+NT+CC. A partir da minha experiência a acompanhar projetos piloto, noto que a maior barreira ainda é a mudança de mentalidade dos agricultores, que muitas vezes veem estas práticas como custos adicionais plutôt que como investimentos a longo prazo.

Por fim, o XI Congresso Nacional de Rega e Drenagem, que decorrerá em Beja de 30 de setembro a 2 de outubro, promete ser o ponto de encontro onde estas linhas de pesquisa se encontram com a prática no terreno. Gestão da água, inovação tecnológica e impacto económico do regadio serão debatidos por especialistas, empresas, investigadores e decisores. Espero que as discussões tragam não só recomendações técnicas, mas também mecanismos de financiamento e de formação que permitam aos produtores portugueses adoptar, de forma segura e rentável, as estratégias de otimização hídrica e de melhoria do solo que a ciência vem a demonstrar. Se conseguirmos aliar conhecimento e ação, a agricultura portuguesa terá condições reais de enfrentar a escassez de água e as pressões climáticas sem sacrificar a produtividade nem a qualidade dos nossos ecossistemas, como o emblemático montado.


🔗 Fontes

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